A ECONOMIA
INSTITUCIONAL É UMA TORRE DE BABEL (RESENHA)
Malcom RUTHERFORD, Institutions
in Economics. The Old and the New Institutionalism.
Cambridge University Press: 1996
Shigeto TSURU, Institutional Economics Revisited. Cambridge University Press:
1997
Nos últimos vinte anos houve
uma verdadeira ressurreição de diversas abordagens teóricas antes condenadas
ao esquecimento pelo triunfo da economia neoclássica e pela revolução
keynesiana. Quase todas têm sido colocadas sobre o guarda chuva do “institucionalismo,”
gerando uma razoável confusão sobre o que se deve entender por “economia
institucional” ou “nova economia institucional”. Por isso, podem ser úteis
algumas observações sobre dois livros recentes que apresentam versões bem
divergentes da história das tendências institucionalistas em economia.
O melhor dos dois é o de
Malcolm Rutherford, um estudioso da tradição institucionalista americana, hoje
chamada de “velha” economia institucional (VEI). Entre 1980 e 1993 publicou
mais de uma dezena de artigos de peso sobre o pensamento de Thorstein Veblen,
John R. Commons, Wesley Mitchell, Clarence Ayres e vários dos seus seguidores
que costumam publicar no Journal of
Economic Issues. Mas não aderiu. Permaneceu uma espécie de
simpatizante crítico. Principalmente porque não encontrou na VEI uma abordagem
(ou modelo) que o persuadisse completamente, apesar de estar convencido da
importância crucial de alguns argumentos dos velhos institucionalistas.
Essa postura não se alterou com
a emergência da farta literatura sobre as instituições que acabou sendo
cunhada de “nova” economia institucional (NEI). Seus estudos comparativos
que deram origem ao livro Institutions
in Economics levaram-no a concluir que a “nova” é tão insuficiente
quanto a “velha,” embora os problemas não sejam os mesmos.
A mais forte idéia de
Rutherford diz respeito à falta de unidade da economia institucional, seja ela
velha ou nova. No interior da VEI ele identifica dois programas de pesquisa bem
diferentes. Um, estabelecido por Veblen e modificado por Ayres, foi
essencialmente construído em torno da dicotomia entre os aspectos pecuniários
e industriais da economia, tendendo a enfatizar o poder econômico e político
das grandes corporações. Já o programa de Commons concentra-se em aspectos
legais, direitos de propriedade e organizações. Focaliza principalmente sua
evolução e seus impactos sobre a distribuição de renda e sobre a política.
As instituições são vistas como o resultado de processos formais ou informais
de resolução de conflitos.
Há quem diga que os dois
programas são complementares. Mas não é possível ignorar os focos de tensão
que foram apontados pelo próprio Commons quando tratou a dicotomia de Veblen de
“cínica antítese”.
Rutherford identifica entre os
novos institucionalistas pelo menos três programas de pesquisa. Um, parecido
com o de Commons, concentrado nos direitos de propriedade (Alchian & Demsetz,
Posner). Outro focaliza essencialmente os processos de escolha pública,
incluindo os que envolvem “rent seeking”
ou coalizões para ação coletiva (Olson, Mueller). E o terceiro lida
principalmente com as organizações, incluindo basicamente a tradição dos
custos de transação (iniciada por Coase e desenvolvida por Oliver Williamson),
mas também a “agency theory” de
Jensen & Meckling.
A NIE também têm sido definida
de forma a englobar outras contribuições vindas da teoria dos jogos, da tradição
austríaca ou da corrente neo-schumpeteriana. E quase todas encontram-se
misturados na vasta abordagem histórica de Douglass North. Mas North critica
tanto os que usam apenas da idéia do “rent
seeking” para analisar as atividades governamentais, quanto aqueles que
limitam suas análises às alterações de contratos no interior de uma
determinada moldura institucional.
Além de trazer uma minuciosa
autópsia da VEI, o livro de Rutherford é um excelente guia para uma viagem
pelos meandros da NEI. Organizado em torno dos principais tópicos de controvérsia
- formalismo e anti-formalismo, individualismo e holismo, racionalidade, evolução,
eficiência e reforma - o livro Institutions
in Economics talvez seja a melhor demonstração disponível da falta de
significado da expressão “economia institucional” no singular. Para que faça
sentido, essa expressão precisa ser complementada por algum qualificativo do
tipo “a nova economia institucional de Mancur Olson”, “a nova economia
institucional de Oliver Williamson”, “a nova economia institucional de
Douglass North”, etc.
Rutherford não se arrisca a
discutir os possíveis desdobramentos das várias correntes da NIE, encerrando
seu livro com um cauteloso balanço de seus conflitos e complementariedades.
Ao contrário, Shigeto Tsuru dedicou duas das sete conferências[1] que constituem o livro Institutional
Economics Revisited a reflexões sobre o futuro da economia
institucional.
Tsuru é muito otimista sobre
esse futuro porque identifica a “economia institucional” com a superação
de todas as debilidades da economia convencional. E certamente também porque
suas referências sobre a “NEI” são completamente diferentes. Para ele, os
principais expoentes do que chama “institucionalismo moderno” são Gunnar
Myrdal, John Kenneth Galbraith e K.William Kapp. Em nenhuma de suas sete conferências
ele chega a mencionar as contribuições de Douglass North, Mancur Olson, Ronald
Coase, Oliver Williamson, Richard Posner, Dennis Mueller, ou Armen Alchian. Ou
seja, o livro Institutional Economics
Revisited vale mais pelo apêndice sobre a história de vida de Shigeto
Tsuru - que é fascinante - do que pelos esclarecimentos que porventura possa
trazer a respeito dessa Torre de Babel que continua a ser chamada de “nova
economia institucional” no singular.
[1]
O
Fundo Mattioli, da Banca Commerciale Italiana, organiza ciclos anuais de conferências
sobre a história do pensamento econômico na Università
Commerciale Luigi Bocconi, em Milão. O convidado de 1985 foi Shigeto
Tsuru e suas conferências sobre a economia institucional só foram
publicadas em paperback em 1997.