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UNIVERSIDADE
DE SÃO PAULO
FACULDADE DE ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE
DEPARTAMENTO DE ECONOMIA
EAE-5946 Microeconomia IV
OBJETIVOS
O curso visa apresentar, com base em textos que apresentam novos modelos e novas formas de modelagem, alguns tópicos avançados em teoria econômica. Em alguns desses tópicos, os professores do curso tem realizado pesquisas, escrito artigos, os quais foram ou estão sendo publicados em revistas acadêmicas da área de Economia. Ele pretende estimular os alunos a realizar dissertações e teses nesses tópicos, mostrando que tais tópicos apresentam desafios intelectuais interessantes, os quais podem ser superados nos limites desse tipo de trabalho científico. O curso parte de uma discussão de certos textos que fazem uma avaliação do programa de pesquisa em equilíbrio geral - assim como do modo de empregar matemática em Economia. Em seqüência, são consideradas várias linhas de pesquisa que vão além dos limites da teoria econômica de equilíbrio, tais como modelos baseados em autômatos celulares, em mecânica estatística, em algoritmos genéticos e em jogos evolucionários. Nesses modelos, grosso modo, os agentes são pensados como seres adaptativos, limitados racionalmente, que interagem estrategicamente uns com os outros, influenciando-se mutuamente, de tal modo que o sistema econômico passa a ser compreendido como um processo que tem propriedades emergentes relacionadas à sua capacidade de auto-organização. Um sistema complexo consiste de um conjunto de interações mediadas por signos e orientadas por sinais - o que implica na consideração não só das condições das ações, mas também dos impactos do sistema em seus elementos e no ambiente, os quais ocorrem por meio de processos de retroalimentação.
PROGRAMA
Ponto 1: Introdução ao conceito de sistema complexo
Nesse tópico tratamos da diferença crucial entre uma teoria econômica fundada na noção de equilíbrio e uma teoria econômica baseada na noção de desequilíbrio. Introduzimos, ademais, a concepção de uma ciência econômica assentada na teoria dos sistemas adaptativos complexos. Apresentamos aqui, de modo preliminar, a questão da modelagem por meio de simulação.
Textos recomendados: Casti (2001), Prado (2002a), Arthur (1994a)
Ponto 2: Limites da microeconomia neoclássica
Tomando por base a construção neoclássica que melhor respeita os cânones do pensamento analítico, ou seja, a moderna teoria do equilíbrio geral, discutimos até que ponto foram resolvidos os problemas da existência, unicidade e estabilidade do equilíbrio. Procuramos mostrar que o horizonte desse programa de pesquisa se encontra bloqueado.
Textos recomendados: Mas-Colell (1995), Ackerman (2002), Soromenho (2000).
Ponto 3: Limites da macroeconomia novo-clássica
Nessa parte, discutimos basicamente as severas limitações dos modelos de agente representativo que supostamente substituem o comportamento maximizador de um conjunto heterogêneo de indivíduos, os quais formam uma economia atomística e diversificada, por apenas um agente ou um continuo de agentes iguais entre si. Antes disso, porém, apresentamos uma avaliação mais geral da teoria econômica recente e seus desenvolvimentos.
Textos recomendados: Clower e Howitt (1997), Amable, Boyer e Lordon (1997), Kirman (1992),
Ponto 4: Limites da matemática e as suas conseqüências para a teoria econômica
Nesse ponto, examinamos o problema da computabilidade e o da escolha do formalismo por meio do qual é possível construir uma teoria econômica matemática. As decisões requerem informações e instruções efetivas, ou seja, mensagens que possam ser matematicamente computáveis. O sistema econômico, enquanto multiplicidade complexa, pode ser encarado como uma organização em processo que soluciona problemas. Eis que há vários formalismos para a solução de problemas. A teoria econômica usual emprega matemática baseada na teoria dos conjuntos. Já a economia computacional emprega um tipo de formalismo matemático fundado na teoria recursiva.
Textos recomendados: Velupillai (2000)
Ponto 5: Crescimento e Flutuações Econômicas
Nesse tópico, apresentamos um modelo de crescimento econômico que resolve o famoso problema do equilíbrio de fio de navalha, inerente ao modelo de Harrod e Domar, por meio de uma dinâmica de ciclo. Esse modelo de desequilíbrio é interessante porque se situa na fronteira entre da teoria econômica tradicional e a nova teoria econômica baseada na noção de complexidade.
Textos recomendados: Shaikh (1994), Guerrini (2002)
Ponto 6: Conceitos básicos de jogos evolucionários
Partimos de um conhecimento básico de teoria dos jogos padrão que inclui, por exemplo, a noção de equilíbrio de Cournot-Nash. Apresentamos, então, alguns conceitos básicos de economia evolucionária tais como seleção, mutação e herança, assim como de teoria dos jogos evolucionários, tais como estratégia evolucionariamente estável, dinâmica de replicação. Consolidamos um melhor entendimento da teoria dos jogos evolucionários por meio da discussão de alguns modelos elementares.
Textos recomendados: Vega-Redondo (1996), Weilbull (1997).
Ponto 7: Jogos evolucionários determinísticos
Havendo apresentado a teoria dos jogos evolucionário, pretendemos mostrar nesse tópico como ela pode ser empregada para enfrentar questões no âmbito da teoria econômica. Omitimos um estudo matematicamente mais exato da teoria (há já uma boa bibliografia que a apresenta rigorosamente e que está citada neste programa) para nos concentramos em aplicações e para difundir uma linha de pesquisa teórica desenvolvida com certa originalidade aqui no IPE.
Textos recomendados: Prado (2002b), Silveira (2001), Prado (2001a), Prado (2001b), Soromenho, Kadota e Prado (2001).
Ponto 8: Jogos evolucionários estocásticos
Nesse tópico é apresentada aos alunos uma linha de pesquisa em teoria dos jogos evolucionários que emprega a teoria estatística dos processos estocásticos. Nesses jogos, quando o processo é ergódigo, o equilíbrio vem a ser uma distribuição assintoticamente estável; mas pode não haver qualquer equilíbrio, o que sinaliza a existência de processos no tempo com destinos ex-ante totalmente indeterminados (ou não religiosos).
Textos recomendados: Young (1998), Brito (2001)
Ponto 9: Tecnologias com retornos crescentes
Estudamos aqui as contribuições seminais de Brian Arthur que exploraram teoricamente as propriedades da alocação de recursos sob retornos crescentes. Além de múltiplos equilíbrios e de ineficiência, os seus trabalhos mostraram que nessas condições podem aparecer os fenômenos da inflexibilidade da trajetória (lock-in) e da dependência de trajetória (path dependence), associados à não ergodicidade do processo. Damos notícia, também, de como a mesma perspectiva pode ser retomada no âmbito da teoria dos jogos evolucionários.
Textos recomendados: Arthur (1994b), Prado, Soromenho e Kadota (2003)
Ponto 10: Modelagem baseada em autômatos celulares
Autômato celular é um conceito matemático criado por Von Neumann para designar um sistema de elementos conjugados que mudam de comportamento por meio de interações locais guiadas por regras. Mostramos como este conceito foi empregado para estudar processos motivados de um modo microsocial e que geram comportamentos macrosociais característicos e que têm certa regularidade. Tornou-se um exemplo clássico desse tipo de modelagem a "sociedade de tabuleiro de xadrez" empregada por Schelling para estudar a escolha do lugar de residência numa cidade de grupos sociais distinguíveis por alguma característica como a origem nacional, a religião, a cor da pele, etc.
Textos recomendados: Schelling (1978), Hegselmann e Flache (1998)
Ponto 11: Modelagem baseada em mecânica estatística
A mecânica estatística é uma área da Física que estuda os estados de sistemas constituídos por grandes populações - e que descobre as suas propriedades -, que podem ser descritos por meio de distribuições estatísticas associadas aos comportamentos dos elementos componentes. Mostramos, aqui, como é possível construir um modelo de mercado caracterizado por um equilíbrio estatístico das trocas que respeita as curvas de oferta dos agentes econômicos. Esse modelo tem um interesse teórico especial porque vem a ser, de modo contraditório, uma generalização do modelo de equilíbrio geral
Textos recomendados: Foley (1994)
Ponto 12: Modelagem baseada em algoritmos genéticos
Algoritmos genéticos são construções matemáticas que imitam os procedimentos de mutação, transmissão de herança e seleção, característicos dos processos evolucionários. São empregados em teoria econômica para gerar e selecionar aleatoriamente estratégias de comportamento de agentes que interagem em contextos - mercados, muitas vezes - notáveis pela incerteza e pelo modo de evolver conforme a flecha do tempo. Os algoritmos genéticos apresentam-se como soluções por tateamento de problemas cujas soluções exatas enfrentam dificuldades de computabilidade.
Textos recomendados: Arifovic (1994), Miller (1996)
Ponto 13: Modelagem de mercado baseada em simulação
Apresentamos aqui um modelo de microeconomia computacional (ou ACE – agent-based computational economics), construído para representar o mercado de peixes por atacado de Marselha. O mercado funciona diariamente, há diversos vendedores e compradores, os agentes mantém relações de lealdade, os preços variam em cada transação, não ocorre necessariamente balanceamento do mercado, etc.
Textos recomendados: Kirman e Vriend (2001)
Ponto 13: Sociedades artificiais
Apresentamos nesse tópico um modelo ACE abrangente formulado Epstein e Axtell, sob os auspícios do Instituto Santa Fé, para estudar um conjunto de fenômenos sociais, tais como troca, migração, formação de grupo, luta, interação com o meio ambiente, transmissão de cultura, propagação de doenças e dinâmica populacional. Devido a sua abrangência, este modelo é um caso exemplar de "sociedade artificial".
Textos recomendados: Epstein e Axtell (1996)
BIBLIOGRAFIA
Textos Importantes
Ackerman, F., Still dead after all these years: interpreting the failure of general equilibrium theory. In: Journal of Economic Methodology, vol. 9 (2), 2002, p. 119-139.
Albin, P. e D. K. Foley, Decentralized, dispersed exchange without an auctioneer ¾ a simulation. In: Barriers and bounds, op. cit., p. 157-180.
Amable, B., R. Boyer e F. Lordon, The ad hoc in economics: the pot calling the kettle black. In: Is Economics becoming a hard science? Ed. A. d'Autume e J. Cartelier. Cheltenham, Reino Unido: Edward Elgar, 1997, p. 252-275.
Arifovic, J., Genetic algorithm learning and the cobweb model. In: Journal of Economic Dynamics and Control, vol. 18, 1994, p. 3-28.
Arthur, B. W., Inductive reasoning and bounded rationality. In: American Economic Review, vol. 84 (2), 1994a, p. 407-411.
Arthur, B. W., Competing technologies, increasing returns, and lock-in by historical small events. In: Increase returns and path dependence in the economy. Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1994b, p. 13-32.
Arthur, B. W., Y. M. Ermoliev, Y. M. Kaniovski, Path-dependent process and the emergence of macrostrucre. In: Increase returns…, op. cit., p. 33-48.
Brito, A. J., Um estudo sobre a solução de jogos de coordenação por dinâmica de melhor resposta. Monografia de graduação, Departamento de Economia, FEA/USP, 2001.
Chaitin, G. J., Randomness in arithmetic and the decline and fall of reducionism in pure mathematics. In: The limits of mathematics. Singapura: Springer-Verlag, 1998.
Clower, R. e P. Howitt, Foudations of Economics. In: Is Economics becoming a hard science? Ed. A. d'Autume e J. Cartelier. Cheltenham, Reino Unido: Edward Elgar, 1997, p. 17-34..
Durlauf, S. N., What should policymakers know about economic complexity. In: Santa Fe Institute, setembro de 1997.
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Foley, D. K., A statistical equilibrium theory of markets. In: Journal of Economic Theory, vol. 62, 1994, p. 321-345.
__________, Statistical equilibrium models in Economics. Texto avulso, ?????
Guerrini, A. W., Abordagem complexa e modelos de crescimento econômico. Monografia de graduação, Departamento de Economia, FEA/USP, 2002.
Hegselmann, R. e A. Flache, Understanding complex social dynamics: a plea for cellular automata based modelling. In: Journal of Artificial Societies and Social Simulation, vol. 1, n. 3, 1998.
Kirman, A. P., Vriend, N. J., Evolving market structure: an ace model of price dispersion and loyalty. In: Journal of Economic Dynamic and Control, vol. 25, 2001, p. 459-502.
Kirman, A. P., Whom or what does the representative individual represent? In: Journal of Economic Perspective, vol. 6 (2), 1992, p. 117-136.
Krugman, P. The self-organizing economy. Malden: Blackwell, 1997.
Miller, J. H., The coevolution of automata in the repeated prisoner’s dilemma. In: Journal of Economic Behavior and Organization, vol. 29. 1996, p. 87-122.
Nagel, E. e J. R. Newman, Gödel’s proof. New York: The New York Press, 1958.
Prado, E. F. S., Dois modelos clássicos de economia monetária. In: Economia Aplicada, vol. 5 (3), julho-setembro de 2001a, p. 547-567.
Prado, E. F. S., Modelo de Kiyotaki e Wright: uma versão de economia clássica. In: Revista de Economia Contemporânea, vol. 5 (2), jullho-dezembro de 2001b, p. 47-66.
Prado, E. F. S., A Questão da comparação das teorias em “Economia”. Texto não publicado, 2002a. Endereço na Web: www.econ.fea.usp.br/eleuterio/PastaArt-Andamento.htm
Prado, E. F. S., Geração, adoção e difusão de técnicas de produção - um modelo baseado em Marx. In: Análise Econômica, ano 20, nº 38, setembro de 2002b, p. 67-80.
Prado, E. F. S., Soromenho, J. C. e Kadota, D., Survival of Technologies: na Evolutionary Game Approach. Texto não publicado, 2003. Endereço na Web: www.econ.fea.usp.br/eleuterio/PastaArt-Andamento.htm
Schelling, T., Micromotives and Macrobehavior. New York: W.N. Norton & Company, 1978.
Shaikh, A., Wandering around the warranted path: dynamic nonlinear solutions to the harrodian knife-edge. Working Paper, New School, 1994.
Soromenho, J., Microfundamentos e sociabilidade. In: Economia, vol. 1 (2), 2000, p. 185-219.
Velupillai, K., Computable economics. Londres: Oxford University Press, 2000.
Young, H. P., An evolutionary theory of institutions. Princeton: Princeton University Press, 1998.
Livros Didáticos:
Casti, J. L., Would-be worlds – how simulation is changing the frontiers of science. New York: John Wiley, 2001.
Epstein, J. M., Nonlinear dynamics, mathematical biology, and social science. Santa Fe Institute Studies in the Sciences of Complexity. Addison-Wesley, 1997.
Hildenbrand, W. e A. P. Kirman, Equilibrium analysis. Amsterdam: North-Holland, 1988.
Holland, J. H., Hidden Order ¾ how adaptation builds complexity. Sante Fe Institute Studies in the Sciences of Complexity. Medwood City, CA: Addison-Wesley, 1995.
Kapur, J. N. e H. K. Keseran, Entropy optimization principles with applications. New York: Academic Press, 1992.
Mas-Colell, A., M. Whinston & J. Green, Microeconomic theory. New York: Oxford University Press, 1995.
Samuelson, L., Evolutionary games and equilibrium selection. Cambridge: The MIT Press, 1996.
Silveira, J. J., Ciclos goodwinianos e o processo de concorrência num ambiente de racionalidade limitada – uma análise a partir da teoria de jogos evolucionários. Tese de doutorado, IPE/USP, 2001.
Soromenho, J. E. C., Kadota, D. K., Prado, E. F. S., Scale and externalities in an evolutionary game model. In: Estudos Econômicos, vol. 31 (3), 2001, p. 529-550.
Vega-Redondo, F., Evolution, games and economic behaviour. Londres: Oxford University Press, 1996.
Weilbull, J. W., Evolutionary game theory. Londres: The MIT Press, 1997.
Coletâneas importantes:
Anderson, P. W., K. J. Arrow e D. Pines, The economy as an evolving complex system. Santa Fe Institute Studies in the Sciences of Complexity. Medwood City, CA: Addison-Wesley, 1988.
Arthur, W. B., S. N. Durlauf e D. A Lane, The economy as an evolving complex system II. Santa Fe Institute Studies in the Sciences of Complexity. Medwood City, CA: Addison-Wesley, 1997.
Kirman, A. P., Gérard-Varet, L-A, Economics beyond the millennium. Londres: Oxford University Press, 1999.
Departamento de Economia © 2004